A área da Saúde é completamente dependente da inovação - Confira a entrevista com Januário Montone - BrazilLAB
PT EN
JANUáRIO MONTONE SAúDE INOVAçãO

A área da Saúde é completamente dependente da inovação - Confira a entrevista com Januário Montone

02/06/2016

Januário Montone foi Secretário Municipal de Gestão no município de São Paulo entre 2005 e 2007, à partir de então assum

Januário Montone foi Secretário Municipal de Gestão no município de São Paulo entre 2005 e 2007, à partir de então assumiu a pasta da Saúde, onde ficou até 2012. Na administração pública há mais de vinte anos, participou do processo de regulação do setor de saúde suplementar e da criação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), da qual foi o primeiro Diretor-Presidente, de 1999 a 2003. Com ampla experiência em saúde pública, Januário concedeu uma entrevista para a equipe do Brazil Lab e falou sobre empreendedorismo, saúde pública e inovação. Ele destacou que entre as principais dificuldades que temos na saúde brasileira hoje está a incapacidade de integrar os dois subsistemas de saúde, o público e o privado, aproveitando o que cada um tem de melhor em qualidade e sustentabilidade.

Januário é um dos convidados para a palestras sobre "O Poder da Tecnologia na Saúde Pública" promovido pelo Brazil Lab no dia 23/06 no Red Bull Station.

Como você vê o atual cenário da saúde pública em São Paulo?

Januário Montone:

Os paulistas e paulistanos, como os brasileiros em geral, estão descontentes com os serviços públicos de saúde, mesmo dispondo dos melhores serviços disponíveis no SUS. Desde 2001 a rede estadual aderiu ao modelo de parceria com Organizações Sociais, entidades sem fins lucrativos e com reconhecida atuação no setor saúde. Hoje são quase 50 hospitais geridos nesse modelo, com indicadores muito melhores que as unidades tradicionais. A cidade de São Paulo aderiu ao modelo a partir de 2005 e o adaptou às necessidades da rede de atenção básica. Não apenas os hospitais, mas todas as unidades de saúde de uma determinada região são gerenciadas por organizações sociais. O modelo teve forte expansão a partir de 2007 e sobreviveu à mudança de governo decorrente da eleição de 2012. Apesar das ameaças no período eleitoral o modelo foi mantido, na sua essência, embora com algumas distorções. O problema aqui é o mesmo de modelos inovadores como as Agências Reguladoras. Os governos não têm força para extinguir um modelo com o qual não concordam pelo simples fato que ele funciona, mas não aderem estrategicamente ao modelo o que acaba comprometendo seu avanço e seu aperfeiçoamento.

Qual a importância do empreendedorismo e da inovação para essa área?

Januário Montone:

A área da Saúde é completamente dependente de ações empreendedoras e de inovações em todos os campos, seja nos aparatos clínicos, seja nos sistemas de gestão. O processo de desenvolvimento e a incorporação de novas tecnologias no setor é acelerado, acompanhando a complexidade das mudanças populacionais no Brasil e no Mundo. Em pouco menos de cinquenta anos (de 1970 para cá) tivemos um aumento de 126% em nossa população e hoje quase 90% dela é urbana. Desde 1988 nosso sistema público de saúde, que só atendia trabalhadores com carteira assinada e seus dependentes, passou a atender todos os brasileiros. O desafio permanente é a busca de alternativas para propiciar ao maior número de pessoas o acesso às técnicas e aparatos mais modernos e eficazes para melhorar sua qualidade de vida.

Quais os casos que você pode apontar como casos de sucesso de empreendedorismo no setor público na área de saúde?

Januário Montone:

O empreendedorismo primordial para mim é a implantação do modelo de parceria com Organizações Sociais e Parcerias Público-Privadas. O modelo traz para o setor público a agilidade, flexibilidade e efetividade do setor privado, mantendo o caráter público do acesso e atendimento. Isso permite absorver com velocidade infinitamente maior os avanços tecnológicos e nos modelos de atenção, ajustando-se às mudanças do perfil epidemiológico das populações, das condições sócio-demográficas e outras.

O que você acha do trabalho de empresas como a Memed e o Saútil, que estão mudando a forma como os serviços de saúde são consumidos?

Januário Montone:

São ótimos exemplos de ações inovadoras no setor quebrando paradigmas e simplificando o acesso aos serviços de saúde. Também são bons exemplos da falta de integração do setor público e do setor privado. O Saútil, por exemplo, oferece um guia dos serviços de saúde disponíveis no SUS e nas redes privadas de baixo custo, uma poderosa ferramenta de promoção e prevenção. Esse modelo de atendimento poderia ser absorvido pelo setor público oferecendo uma plataforma inovadora de cuidados, um assistente virtual que poderia ser o “Agente Comunitário de Saúde” do Século XXI. No modelo tradicional de gestão do SUS isso é cheio de obstáculos quase intransponíveis. O mesmo ocorre com a Memed com seu sistema de prescrições digitais. A plataforma facilita a atuação dos profissionais médicos, disponibilizando um conjunto de informações de apoio para escolha das melhores opções disponíveis, incluindo uma análise de custo para o paciente. É uma ferramenta que poderia, por exemplo, ampliar a confiança nas vendas de medicamentos pela internet, hoje baseada em prescrições digitalizadas precariamente, certificando as prescrições para efeitos de controle e permitindo ao paciente a busca do melhor preço.

Saiba mais sobre as empresas que estão inovando na saúde brasileira, a Memed e o Saútil

 

Quais seriam, na sua opinião, os principais gargalos na saúde pública brasileira?

Januário Montone:

Nós temos um sistema público de saúde com o melhor modelo de atenção disponível, baseado na Atenção Primária, na promoção e prevenção à saúde, com porta de entrada tecnicamente controlada através das unidades básicas de saúde e dos pronto-atendimentos que fazem o encaminhamento para os tratamentos necessários. Esse sistema tem recursos financeiros insuficiente e perdas sistêmicas imensas devido à disfuncionalidade do seu modelo de governança e do seu modelo de gestão. A União, os Estados e os Municípios participam do financiamento e o sistema decisório é colegiado por que se trata de entes autônomos entre si, pulverizando os recursos e as decisões entre 5.700 municípios, 26 Estados e o Distrito Federal, além da União. Como agravante o modelo de gestão predominante ainda é o burocrático clássico, incapaz de lidar com áreas de prestação de serviços e de prontidão como é a saúde. O sistema privado tem mais que o dobro dos recursos per capita em relação ao SUS e dispões de modernos sistemas de governança e gestão que permitem a eficácia e efetividade máxima de cada real recebido e gasto. Porém, seu Modelo de Atenção é o da medicina curativa, autoreferido, de livre acesso do usuário. É o usuário que decide se “precisa” ir ao cardiologista, ou ao endocrinologista ou o que for. Não há prevenção, apenas a busca de atendimento quando os sintomas se manifestam. Nosso maior gargalo é a incapacidade de integrar esses dois subsistemas de saúde, o público e o privado, aproveitando o que cada um tem de melhor, para a qualidade e a sustentabilidade do sistema.

Veja Também:

Inovação e empreendedorismo no setor público são temas de evento gratuito do BrazilLAB

Realizado pelo BrazilLAB, encontro reunirá startups, governo e academia no Google Campus

O que vem por aí? As propostas de candidatos à presidência que se apresentaram no GovTech Brasil

No encerramento da convenção, cinco presidenciáveis subiram ao palco para compartilhar suas visões sobre inovação no setor público. Confira aqui um resumo de cada um

GovTech Brasil: de acordo com especialistas, a inovação na segurança pública é “para ontem”

Especialistas reuniram-se em São Paulo para debater desafios e soluções para a área. Veja agora os destaques desse encontro