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Facebook anunciou a criação de uma moeda digital livre da intervenção de governos. E agora?

08/07/2019

Anúncio da empresa de Mark Zuckerberg dividiu opiniões em todo o mundo.

Recentemente, o Facebook anunciou a criação de uma moeda digital. Batizada de libra, trata-se de uma criptomoeda, ou seja, um meio de troca que se utiliza da tecnologia de blockchain e da criptografia para assegurar a validade das transações, bem como a criação de novas unidades da moeda. Na prática, seria uma moeda independente de mecanismos de controle governamentais.

De acordo com o anúncio feito por Mark Zuckerberg, o objetivo da nova divisa é permitir que sejam realizadas transações financeiras dentro das plataformas do grupo. Com a libra, será possível fazer compras no Instagram e no Facebook, ou fazer transferências via WhatsApp e Messenger. Para o Facebook, a moeda digital “promete ser mais estável que as criptomoedas já existentes, e mais acessível à população”. Para poder usá-la, tudo o que bastaria seria um smartphone, conta na rede social e um documento de identificação, como o CPF.

 

Receio e pessimismo

Como era de se esperar, o anúncio causou grande impacto. Barry Eichengreen, professor de economia e ciência política na Universidade da Califórnia, recebeu o lançamento da libra com bastante pessimismo. De acordo com ele, os defensores de moedas digitais pretendem que elas “nos libertem da tirania de bancos centrais à medida que serão lastreadas por ativos tangíveis, assim como foi o ouro no século XIX”.

Acontece que a libra, diferentemente de outras moedas digitais, vai complementar as divisas nacionais, em vez de substituí-las. De acordo com Eichengreen, aí surgem os problemas, porque a falta de envolvimento de governos (por meio de bancos centrais) pode onerar fortemente a população. 

Ele explica: “já que a Libra deve circular globalmente, ela será atrelada a uma cesta de moedas. Pode-se imaginar uma cesta na qual o dólar responda por um quarto do peso, refletido pela participação dos EUA na economia mundial, o euro a um quinto, e assim por diante. O valor da libra será vinculado ao da cesta, ainda que flutue diante de cada moeda individual componente. Na prática, pode flutuar de modo agudo diante desses componentes, dado o quão amplos são os movimentos das taxas de câmbio”. Então, afirma ele, a libra não vai dar aos usuários o poder aquisitivo estável que uma conta bancária em moedas locais oferece.

 

Grandes corporações tornam-se os mecanismos de controle

Ethan Lou, especialista em criptomoedas, é ainda mais pessimista. De acordo com ele, o Facebook vai passar a cobrar por seus serviços em libra, e isso dará à sua criptomoeda a escala necessária para alcançar estabilidade. Um valor estável pode ser a licença para “imprimir dinheiro”. 

É uma grande vitória para seus acionistas, sem dúvida. Mas e para o resto do mundo? Lou demonstra preocupação quanto a isso. “Como principal plataforma de comunicação para milhões, senão bilhões de pessoas, o Facebook já tem acesso ao que falamos, ao que pensamos e à nossa percepção de realidade. Agora pode ter acesso às nossas carteiras, também. O Facebook afirmou que não vai coletar e analisar todos esses dados; mas, se o fizer, quem o deterá?”

Para ele, não se trata de grandes empresas se tornarem independentes de mecanismos de controles governamentais; mas sim do fato de que essas corporações estão se tornando seus próprios domínios, que elas controlam como querem. 

“Elas já fazem o que bem entendem, relativamente sem controle. Escândalo após escândalo, Mark Zuckerberg tem esnobado as convocações de parlamentares americanos. É quase como um chefe de estado que só aceita encontrar outro chefe de estado. Enquanto isso, o Facebook absorve tranquilamente as multas. E suas ações continuam subindo”, alerta Lou.

 

Benefícios e turbilhão regulatório

Mas essa opinião alarmista não é consensual. Michael Graham, analista de investimento no banco canadense Canaccord Genuity, acredita que a iniciativa do Facebook vá beneficiar o setor de blockchain e os indivíduos que estão fora do sistema bancário. “A libra pode se tornar, de longe, a criptomoeda de maior crédito até o momento. Nós vemos a moeda como uma forma socialmente consciente de alavancar o propósito do Facebook de fornecer inclusão financeira a bilhões de pessoas no mundo, pela primeira vez”, afirma.

O mesmo ponto foi trazido por nossa fundadora, Letícia Piccolotto, em sua coluna do UOL neste último sábado, dia 13: " é inegável que as criptomoedas nasceram por um motivo e que têm, bem, o seu valor. Elas surgiram como esse modo de desafiar os sistemas monetários e regulamentações. Mas a libra do Facebook, como outras, busca também a inclusão. Segundo estimativas, 1,7 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso ao sistema financeiro. Não recebem dinheiro em espécie, não consomem e não são aceitos nos serviços bancários. Um problema crítico em muitos países, que ignora e até pune cidadãos necessitados".

No entanto, Graham sabe que a iniciativa vai enfrentar um “turbilhão regulatório”. Com efeito, logo após o anúncio do Facebook, mecanismos de regulação em todo o mundo -- sobretudo nos EUA e na Europa -- já anunciaram que vão acompanhar todo o processo de muito perto. Markus Ferber, membro alemão do Parlamento da União Europeia, disse que o Facebook não deve “operar em uma espécie de nirvana regulatório”, enquanto Bruno Le Maire, ministro francês das finanças, afirmou que a “libra não pode se tornar uma moeda soberana”.

Se por um lado "o bitcoin foi a primeira das criptomoedas que afirmaram ser uma rede de pagamento descentralizada e alimentada por seus usuários sem autoridade central ou intermediários", afirma Letícia Piccolotto,"a libra, através do Facebook, propõe a criação uma organização com diversas outras companhias e ONGs para formar um sistema monetário global". Bem, considerando que atualmente são 2,7 bilhões de usuários ativos na plataforma o Facebook certamente poderia capitanear mudanças nesse sentido.

Não há dúvidas de que o anúncio da libra causa apreensão e expectativas na mesma medida. A notícia ainda é recente, e é preciso esperar os próximos passos. No entanto, é inegável que a criação de uma moeda digital desvinculada de mecanismos de controle governamentais obrigue o setor público a olhar para a digitalização com mais atenção, devendo atualizar-se em vários aspectos. Nesse sentido, recebemos a notícia com entusiasmo, pelo menos no momento. Aguardemos o que virá.

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