PEGN: os avanços e desafios do ecossistema govtech, segundo Letícia Piccolotto, do BrazilLAB

Para a cofundadora e presidente do conselho do hub de inovação, dedicado a conectar startups ao poder público, mudança cultural é um dos caminhos para a evolução do mercado
Em 15 de February de 2022

Em janeiro de 2022, o portal Pequenas Empresas & Grandes Negócios - PEGN publicou uma série de reportagens destacando os avanços do ecossistema GovTech. A primeira matéria falou sobre o espaço que ainda existe para o mercado GovTech crescer no Brasil. Já a segunda destacou a importância das startups dedicadas à transformação digital do setor público para a construção de Estados mais sustentáveis, transparentes e democráticos. Agora foi a vez de abordar a trajetória do BrazilLAB e do amadurecimento do ecossistema GovTech.

Neste último dia 4 de fevereiro, foi publicada uma reportagem especial feita com a Fundadora e Presidente do Conselho do BrazilLAB, Letícia Piccolotto, onde ela fala sobre os grandes desafios do ecossistema GovTech no Brasil e como o mercado tem chamado atenção não apenas de empreendedores, mas também de investidores que começam a olhar com bons olhos para as possibilidades de retorno desse segmento. Confira abaixo a matéria na íntegra:

Os avanços e desafios do ecossistema govtech, segundo Letícia Piccolotto, do BrazilLAB

Publicado por Karine Pastore no Portal PEGN.

Desde que fundou o BrazilLAB, hub de inovação que conecta startups e poder público, há seis anos, Letícia Piccolotto viu o ecossistema govtech florescer. Antes, mesmo as startups que atuavam em paralelo a administrações públicas não pensavam em ter governos como clientes. Hoje, empresas inovadoras já saem do papel com esse plano. Os empreendedores não são os únicos interessados. Investidores também começam a olhar com bons olhos para as possibilidades de retorno desse mercado – e, em alguns casos, a colher os frutos da aposta.

Agora, os desafios são outros. O caminho para que o ecossistema das govtechs continue crescendo passa por capacitação, planejamento e diálogo – junto de algumas mudanças de concepção. "O arcabouço legal hoje está muito mais favorável para que o governo experimente coisas novas. Agora é a mudança de cultura", diz Piccolotto. Em conversa com PEGN, a cofundadora e presidente do conselho do BrazilLAB detalha os avanços e próximos passos do setor. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

PEGN: O BrazilLAB foi fundado em 2016. Como você avalia a evolução do ecossistema govtech brasileiro ao longo dos últimos anos?

Letícia Piccolotto: Minha avaliação é muito positiva. Olhando apenas os números do BrazilLAB, hoje, a gente tem uma massa crítica, um volume de govtechs muito maior. No começo, as startups não se identificavam como govtechs. Eram healthtechs, edtechs... startups que atuavam em áreas nas quais o governo também atua, mas com um olhar 100% para o privado. Hoje, a gente tem startups que nascem querendo trabalhar única e exclusivamente com o governo, pensando em soluções B2G (business-to-government) para todos os setores e entendendo o desafio das políticas públicas. Esse ecossistema está muito mais maduro, muito mais avançado, e a prova disso é o mapeamento que fizemos junto ao CAF [Banco de Desenvolvimento da América Latina]. Esta pesquisa mostra que somente no Brasil existem cerca de 1,5 mil startups com potencial govtech atualmente. É um número bem relevante. Em relação ao nosso portfólio, já aceleramos 114 startups, das quais 49% vendem para governo com contratos robustos. E temos agora mais 18 empresas na atual turma de aceleração. Somando empresas aceleradas e do nosso selo temos soluções da rede BrazilLAB rodando em mais de 2 mil municípios brasileiros. Nosso papel é conectar essas duas pontas, e essa conexão está gerando muito impacto.

 

Nesse período, o setor público também mudou?

Muito. A quantidade de laboratórios de inovação dentro do setor público tem aumentado. Com a pandemia, o governo acordou para o fato de que é preciso digitalizar seus processos e de que inovar também vai além de digitalizar. Que é preciso digitalizar o fluxo de informação com o contribuinte, com o cidadão... Então, agora, os próprios governos estão estabelecendo seus laboratórios de inovação – estruturas internas cuja missão é utilizar como base a inovação para repensar políticas públicas reduzindo custo, tempo de atendimento, entre outros pontos. Temos laboratórios de inovação dentro do judiciário e do legislativo também. Fizemos um levantamento, em parceria com a consultoria BCG, sobre o ecossistema aqui e na América Latina e identificamos uma centena de laboratórios de inovação dentro das mais variadas esferas dos governos. Isso é um outro avanço. Lá atrás, há cinco, seis anos, isso não existia. Cada laboratório tem seu próprio jeito de atuar. Os governos estão percebendo que precisam ter servidores capacitados para liderar essas agendas. Outro dado muito relevante é que já vemos fundos de investimento 100% destinados a startups govtechs. Hoje então temos muito mais empreendedores, o governo está mais aberto a essa agenda e tem oferta de recursos.

 

O que falta para alavancar de vez o ecossistema brasileiro?

Eu diria que são três grandes desafios. O primeiro diz respeito à capacitação dos servidores públicos. Há uma assimetria entre os gestores públicos e os players do setor privado. O servidor muitas vezes não sabe como contratar tecnologia, não sabe como medir se determinada tecnologia está funcionando ou não, não sabe como mensurar de fato o impacto na ponta. É um grande desafio para o Brasil, principalmente quando pensamos nas prefeituras. O governo federal tem um grupo muito forte que está liderando essa pauta já há algum tempo, antes mesmo da atual gestão. O trabalho em torno dessa agenda vem desde o tempo da Lei da Informática, ainda nos anos 1990, a Lei de Acesso à Informação, em 2011, e o Marco Civil da Internet, em 2014. Depois a Estratégia de Governo Digital em 2018. Ou seja, no governo federal, os esforços em torno da agenda digital vêm acontecendo de forma relativamente consistente. Mas, quando a gente olha para estados e municípios, o desafio é enorme. São mais de 5 mil municípios no Brasil e sabemos que os servidores carecem de capacitação. É um grande desafio, mas também uma grande oportunidade.

 

E qual é o segundo desafio?

É não levar para o digital a burocracia do físico, investindo especialmente em uma identidade digital única. Costumo dizer que a gente tem de evitar a e-burocracia. O Brasil tem esse mindset burocrático, de mil regras... Você tem de provar 20 vezes que você é você, com foto, com assinatura, com isso, com aquilo... Muitas vezes um processo que é burocrático no físico leva a mesma burocracia para o digital. Então o contribuinte, o cidadão, tem de entrar em cinco, seis plataformas diferentes... Informar CPF, RG, enviar foto... Uma plataforma não conversa com a outra. O risco da e-burocracia é enorme. Vi isso acontecer na pandemia. Muitos governos que começaram a digitalizar seus processos fizeram isso sem muito cuidado, com pressa. Muito trabalho vai ter de ser revisitado. Os escândalos de vazamento de dados são um reflexo de um trabalho que precisa ser muito mais bem elaborado, muito mais bem executado. É preciso ter uma visão de design thinking dentro do governo. Primeiro, é preciso entender quem será o usuário do serviço. Esse usuário tem acesso à internet? E como ele acessa a internet? É por WhatsApp? É por Facebook? Como facilitar a vida dele? A Inglaterra fez um trabalho muito legal nesse sentido. Reconstruíram todos os programas analisando a realidade dos usuários. E o terceiro desafio é o da população, que precisar se engajar no processo. A revolução tecnológica é um movimento muito importante e todos nós precisamos acompanhar isso. Envolve dilemas éticos e morais. A questão, por exemplo, da regulamentação das redes sociais, a exposição que nossos filhos têm hoje nas redes sociais, quanto o governo sabe da nossa vida... Todas essas questões são muito importantes. É imprescindível que toda a população se aproprie. Que todos nós sejamos protagonistas da transformação digital do setor público. Essa revolução é de todos nós.

 

Como assumir esse protagonismo na prática?

Pois é, tenho medo de que essa discussão se torne muito técnica e que fique na mão de especialistas. Não podemos nos tornar reféns dessa situação. Isso vai impactar a vida de todo mundo e de uma forma muito significativa. E esse é o terceiro desafio – de quanto a gente deixa essa agenda mais palatável para as pessoas, de quanto a gente tem de fazer com que todos entendam o ônus e o bônus do avanço tecnológico. Eu, como cofundadora do BrazilLAB, como mãe de três filhos, tenho de levar essa agenda nos próximos anos.

 

Difícil, hein?!

É preciso um movimento de comunicação de massa muito forte. E eu acho que está ficando mais evidente. Agora, está mais claro para todo mundo, com o impacto das fake news nas eleições, o impacto das redes sociais na vida dos adolescentes, o aumento nos índices de depressão e ansiedade... Esses assuntos estão ficando mais evidentes, mas é preciso aumentar ainda mais o barulho e levar isso para as camadas mais vulneráveis. Nós temos acesso a essas informações, mas muitas pessoas, não. A gente já tem habilidade para lidar com o digital, mas muitas pessoas estão numa situação mais vulnerável. Não têm a mesma habilidade, não têm condições de pagar um bom plano de internet. Há o risco de uma exclusão digital ou de aumento do fosso da desigualdade, por causa do avanço tecnológico. Acho que o ideal é trabalhar cada vez mais parcerias, ter mais agentes discutindo essas problemáticas. É preciso levar essas questões a lugares onde o governo não está chegando. Temos também de trabalhar cada vez mais com o público jovem.

 

Para que a transformação digital do setor público seja efetiva é imprescindível o engajamento da sociedade e a confiança da população no governo, não é?

Sem dúvida. A gente monitora muito as pesquisas de índice de confiança e vê que a população na Europa tem um índice de confiança no governo muito maior do que na América Latina e na América do Norte. A Europa é o grande case de garantia da segurança de dados e da privacidade. Foi a Europa que começou a questionar o monopólio das gigantes da tecnologia, como Facebook e Google, e que atuou de forma bastante consistente. A Europa está muito mais avançada. No caso da América Latina, a gente tem um desafio enorme. Muitas vezes, a gente não confia nem no nosso vizinho. Como confiar no governo frente a todos esses escândalos de corrupção? Não é fácil mesmo. Trabalhar isso é muito importante.

 

Qual é o caminho?

Em minha opinião, a saída é qualificar o servidor público. Pessoas comprometidas verdadeiramente em servir o público precisam estar capacitadas para entender os desafios do século 21. Volto a dizer, temos uma grande oportunidade aí. Mas o trabalho é grande. Temos ainda um longo caminho pela frente, mas a trajetória tem sido muito positiva.

 

Em sua opinião, como a transformação digital do setor público impacta a construção de Estados mais transparentes, sustentáveis e democráticos?

Tomemos o caso do Brasil. A Lei de Acesso à Informação, de 2011, foi muito importante. Em busca da gestão transparente da informação, tornou obrigatória a divulgação de dados do interesse da população – dos salários dos servidores aos gastos com o uso de cartão de crédito corporativo. É uma arma que a população tem para acompanhar o que está sendo feito, fiscalizar, reivindicar... O problema é que hoje muitos desses dados estão sendo disponibilizados de forma bruta. Sem o tratamento dessas informações, é preciso recorrer a especialistas para que façam a leitura e interpretação desses dados. Atualmente, uma série de ONGs, como a Transparência Brasil e a Open Knowledge Foundation, faz esse trabalho.

 

O acesso a essas informações só é possível graças aos avanços da tecnologia nos últimos anos.

Claro. Antes mandava um requerimento, o órgão analisava e mandava de volta os dados solicitados. Esse processo levava cinco, seis meses e, finalmente, quando as informações chegavam, já estavam obsoletas. Ou seja, o cidadão não tinha mais o poder de agir. Hoje esse gap não pode ser superior a 30 dias. Do contrário, os órgãos podem ser autuados pelo Ministério Público. Tivemos ganhos enormes com o avanço tecnológico. Mas ainda são pouquíssimos municípios que têm Diário Oficial digital, por exemplo.

 

Qual é o impacto das novas legislações, como o Marco das Startups e do Empreendedorismo Inovador e da Nova Lei de Licitações?

Os gestores públicos não têm mais a desculpa de que a lei não permite que se contrate essa ou aquela startup. É o fim do argumento de que “a lei não permite a contratação de inovação”. O arcabouço legal hoje está muito mais favorável para que o governo experimente coisas novas. Agora é a mudança de cultura. Do lado do investidor, porém, eu acho que eles ainda não entendem com toda clareza o que são essas leis, como podem ajudar.

 

Por que, apesar de necessário e promissor, o setor govtech não exibe a mesma efervescência dos outros ecossistemas de inovação do sistema financeiro, por exemplo?

Por desconfiança e medo. O governo tem fama de ser mau pagador, de não ser transparente. A negociação com o governo demora de cinco a sete vezes mais do que uma negociação com as empresas privadas, mas, a partir do momento que você vende para o governo, seu volume de vendas vai ser muito maior do que o volume de vendas para o setor privado. Então o tempo que você demora para vender é compensado lá na frente. Tem de ter um investidor mais paciente que vai proporcionar saúde financeira por um pouco mais de tempo, até que o empreendedor se consolide. E, uma vez que se entra no governo, prestando um bom serviço, é muito difícil sair. Porque os políticos querem votos e a população não vota em quem piora os serviços. Esses contratos são renovados e pactuados para toda gestão, para os próximos quatro, cinco anos. É algo tem de ser visto com outros olhos.

 

Confira a matéria na íntegra no site da PEGN.

 

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