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Primeiro fundo de impacto social brasileiro vira caso de estudo em Harvard

26/09/2017

O primeiro fundo de impacto social do país, a Vox Capital, é, além de pioneiro, um case de sucesso num mercado ainda incipiente.

Quem diz é a Universidade Harvard, nos Estados Unidos, uma das mais conceituadas instituições de ensino do mundo, que lançou um estudo inédito sobre o investimento de impacto no Brasil a partir da evolução dessa empresa.
Fundada em 2009 por Antônio Ermírio de Moraes Neto, um dos herdeiros do grupo Votorantim, maior conglomerado industrial da América Latina, a Vox gerencia cerca de R$ 120 milhões e tem mais de 50 investidores.
Apenas neste ano, start-ups que atuam nas áreas de saúde, educação e finanças e receberam aportes do fundo beneficiaram 1,8 milhão de pessoas de baixa renda.
A atitude do fundo e o tamanho de seu investimento chamaram a atenção de Julie Battilana, professora de administração da universidade americana. Ela e sua equipe ficaram seis meses acompanhando o trabalho do fundo de investimento, que tem sede em São Paulo.
O resultado da pesquisa será apresentada no curso da nova disciplina do MBA da Harvard Business School, dedicada exclusivamente a esse tema, no próximo semestre letivo.
Battilana diz que a empresa entendeu como viabilizar financeiramente o negócio e proteger o interesse dos investidores, sem deixar de lado a missão social.
"Internacionalmente, o ramo ainda tenta equilibrar esses dois objetivos na prática. A Vox é um bom exemplo."
O portfólio de investimentos da Vox tem negócios sociais inspiradores como o da Magnamed. A empresa desenvolve equipamentos respiratórios de baixo custo para ambulâncias e UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).
Os aparelhos atingem diretamente um dos maiores problemas do sistema de saúde no Brasil: a falta de aparelhos e a manutenção precária.
Essas deficiências causam o bloqueio de leitos em 77% dos hospitais do SUS, segundo o Relatório Sistêmico de Fiscalização da Saúde, divulgado pelo TCU (Tribunal de Contas da União).
A Magnamed, fundada por Tatsuo Suzuki, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2016, atende todos os Estados brasileiros e exporta para 40 países.

OS MUITOS NÃOS

Ao lado dos cofundadores Daniel Izzo, 41, ex-executivo da Johnson & Johnson, e Kelly Michel, 36, criadora da Artemisia, Ermírio de Moraes Neto não imaginava que seria tão difícil conseguir alavancar um fundo de investimento de impacto no Brasil.
O desafio não era só o de qualquer fundo tradicional -captação de recursos, fluxo de negócios e gerenciamento de riscos-, mas sobretudo a falta de familiaridade dos empresários brasileiros com negócios de impacto social.
"As pessoas nos diziam: 'Vocês deveriam encontrar um emprego de verdade. Na minha experiência de 20 anos no setor bancário, nunca tive clientes dispostos a juntar o social e o financeiro. As pessoas querem ganhar dinheiro'", contou Neto aos pesquisadores de Harvard.
O brasileiro relata que recebeu muito 'não', antes de começar a ouvir 'sim'.
Uma dessas tentativas foi com Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e um dos maiores gestores de recurso do país. Fraga foi abordado por Neto pouco antes de entrar em um helicóptero, após uma conferência realizada no Nordeste.
A conversa, de poucos minutos, foi suficiente para convencer o banqueiro, ao final das escadas, a agendar uma reunião. Fraga acabou sendo um dos primeiros investidores da Vox.
"Inicialmente era difícil encontrar empresários que realmente entendessem a nossa equação", diz Izzo. "O nosso portfólio não estava crescendo conforme esperávamos. Pensávamos que, em um ano, iríamos angariar fundos o suficiente, mas demorou dois."

RECONHECIMENTO

A empresa lançou o seu primeiro fundo com um capital inicial de R$ 24 milhões em 2012. Em 2014, o capital final chegou a R$ 84 milhões. A taxa de retorno do fundo é comparada às de estruturas financeiras tradicionais.
A Vox Capital figura, por quatro anos consecutivos, entre as 50 empresas de investimento de impacto mais importantes do mundo, de acordo com a classificação da Impact Assets 50.
Izzo diz que o fundo foi fundamental para a construção do ecossistema do setor no país. "Sendo pioneiros, temos muita responsabilidade. Precisamos ser cautelosos e transparentes."
Após o sucesso do primeiro fundo, a Vox começou, no ano passado, a arrecadação de recursos para o segundo, totalizando R$ 120 milhões.
Para o futuro, a empresa pretende continuar se concentrando em investimentos nas áreas de educação, serviços financeiros e nos cuidados de saúde, mas quer apostar também em projetos na cadeia de abastecimento alimentar e de energia.
"Há um crescente movimento em torno da inovação social no Brasil, com grande potencial", avalia Battilana. "A Vox traz um alto grau de reflexão no desenvolvimento de uma organização que quer ser exemplar."
Nos últimos dois anos, o mercado brasileiro de investimentos de impacto apresentou crescimento. No período, o número de investidores domésticos no segmento passou de nove para 13.
Segundo Izzo, o desafio na hora da captação é fazer o investidor olhar para além do atual cenário econômico. "Os empresários não estão vendo só a crise, mas que eles precisam também agir. Não dá para depender de governos nem de terceiros para garantir um Brasil melhor."

 

Fonte: Folha Online

Link Original: http://m.folha.uol.com.br/mercado/2017/09/1921228-primeiro-fundo-de-impacto-social-brasileiro-vira-caso-de-estudo-em-harvard.shtml

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