Programar não basta: estes são os requisitos das lideranças na era digital

Muito mais do que conhecimentos técnicos, habilidades analógicas são imprescindíveis para o novo mercado.
Letícia Piccolotto Em 19 de April de 2022
 
*Texto publicado originalmente na coluna semanal de Letícia Piccolotto no UOL/Tilt.
Já tive a oportunidade de discutir aqui sobre o paradoxo que a transformação digital nos impõe: ao mesmo tempo que as competências técnicas, especialmente a habilidade de programar novas soluções digitais, crescem exponencialmente em sua importância, a ponto de elencarmos o "apagão de talentos tech" como um dos principais desafios do setor, as habilidades "analógicas" — conhecidas também como soft skills —, e mais relacionadas à natureza humana, serão imprescindíveis para o avanço de toda a sociedade diante de uma revolução tão exponencial como a tecnológica.
Pode parecer demagogia dizer que as características humanas são assim tão fundamentais, mas trata-se de uma verdade absoluta. E as evidências sobre isso crescem. É o que mostra um estudo recente, realizado por professores da Harvard Business School.
A professora Linda Hill e sua equipe de pesquisadores entrevistaram 1.700 lideranças de organizações em mais de 90 países sobre quais seriam as habilidades fundamentais para a liderança na Era Digital. O estudo traz resultados absolutamente intrigantes: as quatro principais qualidades apontadas são: adaptabilidade (apontada por 71% dos entrevistados), curiosidade (48%), criatividade (47%) e conforto com a ambiguidade (43%). Notem: nenhuma delas está relacionada à habilidade de operar códigos de programação.
Com base na escuta dessas lideranças, o time de pesquisadores elencou as seis principais características e práticas para que as lideranças possam recalibrar sua atuação frente a um mundo que se transforma cotidianamente a partir da tecnologia.
Compartilho abaixo as descobertas que me pareceram mais instigantes.
A primeira delas é que as lideranças precisam ser catalisadoras de transformações, e não só planejadoras de cenários. Confiar nas experiências anteriores ou retardar a tomada de decisão esperando alcançar maior clareza pode representar um risco; é preciso aprender a navegar na ambiguidade e a desenvolver a chamada "inteligência contextual": compreender as principais informações de um determinado ecossistema e se preparar para impulsionar a mudança, em vez de reagir a ela.
Confiar e delegar são outros dois princípios básicos dos novos tempos. É preciso que as lideranças sejam capazes de orquestrar a ação coletiva, ao invés de tomar decisões de maneira centralizada. Será preciso também incentivar o trabalho em diversidade — seja cultural, regional ou organizacional — além de investir em talentos. Tudo isso implica rever a ordem tradicional das organizações, buscando promover horizontalidade, confiança e colaboração.
As lideranças precisam ser exploradoras. Em outras palavras, como define um dos entrevistados pela pesquisa, é preciso "colocar a curiosidade em ação". Para isso, será fundamental sair do escritório para conhecer novas tendências e capturar, com antecedência, possíveis sinais de mudança — para estarem preparadas antes que as transformações se concretizem.
A quarta habilidade necessária para as lideranças é a coragem. A Era Digital não é um espaço para quem tem aversão ao erro ou ao insucesso. As apostas são grandes, mas as possibilidades de retorno também. Em um cenário de mudanças profundas, constantes e ágeis, é preciso convicção e compromisso com o exercício de experimentar. Como define um dos participantes do estudo: "as lideranças devem deixar de tentar ter todas as respostas para se sentirem confortáveis com o desconforto".
Diante das distrações, compromissos e tarefas que se acumulam, é preciso se fazer presente. Isso se dá a partir de práticas muito concretas, como exercitar a empatia, estar aberto à vulnerabilidade e adotar uma comunicação transparente e autêntica.
Por fim, mas não menos importante: as lideranças precisam viver seus valores com convicção. Isso implica estar permeável às mudanças que surgem e impactam a sua atuação, mas permanecer fiel ao propósito e ao compromisso da organização.
Esses insights, aprendizados e recomendações parecem ser fundamentais no momento em que estamos vivendo, quando a pandemia arrefece e iniciamos uma volta para o que conhecemos como "normalidade". Qualquer que seja esse novo cenário, será fundamental reconhecer que o avanço tecnológico faz de nós peças ainda mais importantes e que a humanidade, em sua forma mais elementar, continuará tendo sua relevância.

 

Confira o texto na íntegra no UOL/Tilt.

 

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