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“Governos são bons em coletar dados, mas não em usá-los”: como Beth Blauer e o GovEx estão ajudando a mudar esse paradigma

28/03/2019

Em apresentação no DemoDay do BrazilLAB, a Founder do Centro de Excelência para Governos da Universidade Johns Hopkins compartilhou experiências e aprendizados

Uma das principais atrações do DemoDay do 3º Ciclo de Aceleração do BrazilLAB,  foi a apresentação da norte-americana Beth Blauer. Com uma importante trajetória no campo de inovação no setor público – é Diretora Executiva e Founder do GovEx, Centro de Excelência para Governos da Universidade Johns Hopkins (EUA) –, Blauer teve muito a compartilhar e a inspirar sobre GovTech.

Sua relação com inovação em governos está fortemente ligada à cidade em que ela nasceu. “Sou de Baltimore, uma cidade portuária que tem uma história um pouco trágica. Sempre foi um município violento, com altos índices de tráfico, consumo de drogas e uma série de outros problemas”, conta Blauer.

 

Os dados estão aí. Que tal usarmos?

De acordo com ela, as coisas começaram a mudar há cerca de dez anos. “Tivemos um prefeito que herdou verdadeiros ‘recordes negativos’: roubos, assassinatos e outros crimes. Ele decidiu usar os dados que o município coletava para focar em soluções para esses problemas”. E aqui, Beth Blauer já destacou a mensagem principal de sua palestra: “analisar aprofundadamente os dados para, daí, debater soluções e melhorar a tomada de decisões no setor público”.

Como exemplo, ela citou a mudança na distribuição de recursos para a segurança pública em Baltimore. “Antes, cada região da cidade recebia os mesmos recursos. Mas os dados mostraram que havia lugares que as pessoas estavam muito mais vulneráveis ao crime do que em outros. Então, esse envio de recursos foi ajustado de acordo com os desafios, o que fez toda a diferença”.

Outra importante mudança de paradigma foi a gestão municipal passar a encarar a violência como uma questão de “saúde pública”. “Começamos a pensar em como hospitais poderiam exercer um papel nessa mudança de percepção”, conta Blauer.

 

Trazendo os stakeholders para a conversa

Beth Blauer

Os resultados foram muito significativos. “Reduzimos fortemente a quantidade de pessoas afetadas pela violência. Os dados de homicídios caíram - de 400 assassinatos anuais para menos de cem”.

Mas a mudança não ocorreu só com o uso de dados. “Trouxemos todos os stakeholders para a mesa, os dados foram o alicerce dos debates. O mais importante foi tentar entender o que os dados estavam mostrando para daí extrair decisões. As análises foram fundamentais nesse processo”, destacou Blauer.

Depois da experiência bem-sucedida em Baltimore, o desafio foi escalar o estado de Maryland. “Começamos a olhar para os problemas mais persistentes, mas no nível estadual o processo foi um pouco diferente. Mesmo assim, conseguimos fazer as perguntas certas, e os resultados foram vindo, nas mais diversas áreas”.

Ela insistiu na questão da análise: “o indispensável é pegar o dado e alinhá-lo no sentido do problema que você quer resolver. Levei esse pensamento para a Johns Hopkins University, onde criamos o GovEx para melhorar as habilidades de análise de dados do setor público. Afinal, governos são bons em coletar e armazenar dados; mas não são bons em usá-los”.

Como ocorre esse complexo trabalho de mudar paradigmas? “Criamos um currículo de atividades baseado em experiências de mundo real. Procuramos desenvolver as habilidades de inovação dentro de governos e órgãos do setor público. Também nos apoiamos em pesquisas e procuramos suprimir as lacunas entre discurso acadêmico e vida prática. Falamos a língua prática, que todos podem entender”, afirmou Blauer.

 

Buenos Aires e Memphis mostram o caminho

Beth Blauer

Beth Blauer apresentou exemplos concretos desse trabalho. Um deles é a capital argentina. “A Prefeitura nos procurou para ajudá-los a melhorar o atendimento à saúde”, contou a Founder do GovEx. “Então, criamos um mapa com todos os centros de saúde da cidade e percebemos algumas discrepâncias. Por exemplo, na parte norte havia uma distribuição boa de centros; mas, no sul, onde está a população mais vulnerável, não havia muitas unidades”.

Além disso, havia desequilíbrio de idade e de gênero: “poucos centros de atendimento a idosos, onde a incidência era maior, ou de médicos ginecologistas, onde havia predominância de mulheres”. Com a análise, decidiu-se por uma redistribuição dos recursos e de unidades de atendimento de saúde. “Isso contribuiu muito para que pessoas ficassem mais confiantes em relação ao atendimento, ao acesso”.

Já na cidade de Memphis, no estado norte-americano do Tennessee, o problema era o lixo. “Havia muitos resíduos espalhados por todo o município, muitos problemas com a limpeza. Analisando os dados, descobrimos, com a Prefeitura, que havia problemas com as empresas fornecedoras do serviço de coleta”. A partir daí, houve uma profunda reestruturação de contratos, inclusive com cancelamentos.

Blauer afirma que o mais importante é provocar a mudança não só em gestores públicos, mas em empresas que prestam serviços. “Trata-se de como fazer com que esses novos mecanismos forcem prestadores de serviço a um diálogo diferente com as gestões municipais”.

Por fim, Beth Blauer compartilhou os índices de boas práticas desenvolvidos pelo GovEx, para que cidades se inspirem e formem uma “corrente de inovação”. E concluiu: “estamos pensando em dados diferentemente. A realidade é que governos realmente precisam começar a usar esses dados para de fato mudar a vida das pessoas. E por ‘usar’, me refiro a analisar, fazer as perguntas certas e, a partir daí, tomar as melhores decisões”.

Assista à apresentação de Beth Blauer (disponível em inglês):

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