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Govtechs, para além dos governos - artigo de Lucas Prado, Co-founder da Meritocracity

14/02/2020

Como as GovTechs podem aprimorar seus modelos de negócios para garantir maior sustentabilidade, independência e escalabilidade, buscando novos clientes e estratégias de monetização híbridas.

Confira artigo de opinião de Lucas Ribeiro Prado, servidor público, cientista de dados e co-founder da Meritocracity.

Startups podem contribuir de forma expressiva para acelerar e potencializar os processos de inovação no setor público, principalmente em países onde há muita burocracia, como é o caso do Brasil, que está no ranking dos países mais burocráticos do mundo. Existem startups focadas em oferecer soluções inovadoras para as dores do governo para que ele possa solucionar as dores dos cidadãos de forma mais eficiente, elas são conhecidas como GovTechs

São muitas as adversidades que uma GovTech precisa superar para se manter e validar suas propostas de valor tendo apenas o governo com o cliente (B2G): extensas legislações, dificuldade de contato com os gestores públicos, regularização de documentos, licitações fraudulentas, atraso nos pagamentos e tudo isso baseado no menor preço com um cash-flow ínfimo. Para empresas cuja a dinâmica do negócio exige velocidade na validação do produto, buscando o melhoramento contínuo, lidar com a gestão pública parece um pouco desanimador. 

Justamente para auxiliar com este e muitos outros desafios ao longo da jornada é que existem aceleradoras como o BrazilLAB, o único hub de govtechs da América Latina. O Programa de Aceleração do BrazilLAB, que está em sua 4ª edição, é uma ótima opção para startups que pretendem se diferenciar no mercado de GovTechs. Este ano foram mais de 900 inscritos e 28 selecionadas, o que demonstra o fortalecimento desse ecossistema no Brasil, quem vem se confirmando cada vez mais como uma tendência mundial de mercado. 

Quando o assunto é governo as coisas parecem, realmente que são engessadas e atrasadas, mesmo quando estamos falando de soluções disruptivas e inovadoras. Muitas vezes o quando uma “solução inovadora” chega ao governo ela já se tornou obsoleta na iniciativa privada. Porém, algumas vezes o governo pode ser o agente catalisador dos processos de inovação, como por exemplo nas parcerias entre NASA e IBM para as primeiras viagens do homem pelo espaço (recomendo o filme “Estrelas Além do Tempo”). Ou em nosso caso, que o primeiro computador brasileiro, o Univac-120, foi adquirido pelo Governo do Estado de São Paulo em 1957 para calcular todo o consumo de água na capital. 

Muitas vezes, porém, a mentalidade dos empreendedores acaba se moldando à forma tradicional de fazer negócios com o governo, sendo forçado a entrar no jogo. Vender para o governo é um processo difícil e demorado e isso acaba arruinando muitas GovTechs que teriam grande potencial de transformação e impacto social. É como caçar um mamute: para sobreviver, é preciso ser criativo e buscar alternativas que permitam às startups não ficarem demasiadamente dependentes do governo.

Governos podem ser transitórios, instáveis, oportunistas e muitas vezes corruptos. Estes fatores têm provocado uma crise mundial de confiança da sociedade em relação às instituições governamentais, como mostra a pesquisa Trust Barometer 2018. Ter o governo como cliente, significa muitas vezes ser associado à imagem de um determinado governante, o que pode ser muito ruim para os negócios, principalmente em um país polarizado politicamente. Este é um ponto de inflexão em que as GovTechs como um ente não-governamental da iniciativa privada, poderiam ser especialmente úteis, permitindo maior participação popular e imparcialidade, dando mais transparência e reconectando os cidadãos aos governos.

A Meritocracity, uma startup brasileira, está inovando nesse sentido e  desenvolveu seu produto dentro de um modelo de negócios que favorece essa integração: o B2C2G. A grande vantagem desta proposta é permitir às GovTechs superar a dependência em relação aos governos e à burocracia das licitações. Ao inserir um cliente intermediário no clássico B2G é possível garantir maior autonomia e mais agilidade para as GovTechs impulsionarem seus negócios e ganharem adesão da sociedade. Isto pode causar um grande impacto no ecossistema de startups que atuam no setor público, enfraquecendo as práticas ilícitas de contratação e reforçando a participação popular nas escolhas do governo. 

No caso da Meritocracity a figura do consumer é o próprio servidor público, uma vez que são oferecidos a ele um conjunto de serviços e produtos como network, gamificação, conteúdo e vitrine para que ele possa progredir e investir em sua carreira profissional. Esta relação B2C agrega valor aos produtos de people analytics que são desenvolvidos para o gestor público, produzindo dados e indicadores de performance dos servidores para auxiliá-lo na tomada de decisão. 

Apesar de terem focado neste nicho, as possibilidades para este cliente intermediário podem ser várias, como é o caso de outra GovTech brasileira, o Colab, uma GovTech de zeladoria urbana que fornece dados obtidos a partir dos serviços prestados ao governo para empresas, criando um modelo híbrido B2G2B. Foram mais de 3 anos até chegarem nesta proposta de valor e quase faliram, mas hoje são uma referência do mercado de GovTechs e estão entre as startups selecionadas para o Programa de Aceleração do BrazilLab deste ano. 

Quando se deparam com a dificuldade da burocracia e dos trâmites das licitações, muitos founders acabam desistindo antes mesmo de conseguirem efetivar a relação com o governo. No B2G é preciso estar preparado para suportar um longo período de bootstrapping, ou seja, crescer o negócio com um mínimo de capital de risco ou outros investimentos. Nesse ponto, modelos de negócios híbridos podem favorecer a escalabilidade e ajudar a manter as GovTechs ativas até a primeira contratação pelo governo, que no Brasil, pode levar pelo menos 6 meses para ocorrer dependendo da modalidade de licitação e dos prazos para pagamento, isso implica também atrasos nos processos de testes e validações do produto.

A busca de um cliente intermediário, especialmente um que venha a agregar valor para o cliente final, alia uma estratégia de sobrevivência a uma de capilarização no mercado. Romper com o paradigma do B2G pode ser um grande avanço, que permita pensar as GovTechs para além dos governos, criando uma gama de novos modelos negócios como por exemplo B2C2G, B2C2B2G, B2B2C2G ou B2B2G que abram novos caminhos e possibilidades para as GovTechs

Outro diferencial que pode ser buscado por startups é a monetização de “matéria-prima” ociosa.  No caso da Meritocracity, foi a monetização de dados abertos. Fora do ambiente acadêmico e dentro dos órgãos públicos (que, no Brasil, só agora estão adotando advanced analytics em seus processos e tomada de decisão), esse tipo de informação é bastante subutilizada. De acordo com a McKinsey, os dados abertos poderiam potencialmente criar U$ 3 trilhões por ano em valor para a economia global. Se dados são o novo petróleo, precisamos explorar mais os dados abertos, tornando-os funcionais e acessíveis para a população e agregando valor a eles. Isto pode criar toda uma cadeia de valor virtuosa, que está sendo mapeada pelo GovLab em alguns países, através do projeto OpenData500.

Como produto, a plataforma de dados da Meritocracity é estruturada a partir de dados abertos disponibilizados nos portais da transparência dos órgãos públicos e, a partir deles, novas camadas de informações são adicionadas para produzir insights que auxiliem os gestores públicos na tomada de decisão. Com isso se espera dar funcionalidade aos dados abertos e mais transparência à gestão pública, sendo possível, por exemplo, mensurar se a remuneração de um servidor público corresponde de fato ao seu desempenho e recompensá-lo de acordo com seu mérito. 

O Brasil tem cerca de 11,5 milhões de servidores públicos e gasta aproximadamente R$ 928 bi com folha de pagamento, o equivalente a 13,6% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. Imagine o desafio de avaliar todos eles de forma efetiva e confiável? Com os dados gerados pela Meritocracity é possível que um Secretário de Governo possa nomear sua equipe de assessores por critérios meritocráticos, ao invés do nepotismo e do fisiologismo partidário. Uma das recomendações da OCDE recomenda aos países membros é recrutar, selecionar e promover servidores públicos através de processos transparentes, abertos e baseados no mérito.

Quando falamos de inovação no setor público, não existem receitas prontas. Estas são algumas das possibilidades para startups que pretendem vender para governos sem sujar os sapatos ou correr o risco de ficarem atoladas. Governos são clientes fortes e poderosos que movimentam grande parte da economia mundial mas, por outro lado, podem acabar pesando demais para startups que precisam validar e escalar rapidamente seus negócios. Não há uma solução simples para este desafio, mas pensar as GovTechs para além dos governos pode ser o primeiro passo.


Lucas Ribeiro Prado é bacharel em direito, servidor público, cientista de dados e co-founder da Meritocracity.

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